Extinção de Freguesias (reorganização administrativa)

2011-11-26 20:28

Reorganização ADMINISTRATIVA?

Sentimentos difíceis de apagar!

Lazarim a maior freguesia do concelho de Lamego, isolada num vale profundo, entre montanhas no sopé da serra do Monte Muro, a mais de 15 quilómetros de distancia da sede do concelho, com quase 16 quilómetros quadrados de superfície e uma população superior a 500 habitantes (segundo os sensos de 2011), o que resulta em media de 32 habitantes por quilómetro quadrado.

Esta Freguesia tem especificidades muito próprias, em virtude de ser constituída por aldeias muito dispersas umas dos outros, algumas já completamente desabitadas, servidas por caminhos e estradas tortuosas e de difícil acesso, com grande inconveniente de só existirem transportes públicos no período de aulas com partida às 7 horas e regresso às 17, ficando muito penoso para os nossos habitantes qualquer deslocação para a sede do município e restantes freguesias do concelho.

Lazarim tem características socioculturais muito particulares devido às disputas com os povos vizinhos pelas defesas da posse dos baldios, motivo pelo qual a divisão geográfica da freguesia se perpetuou inviolável no tempo, o que se conseguiu manter até aos dias de hoje à custa da união que sempre existiu entres os vários povos que constituem esta freguesia.

Este contexto territorial está bem vincado na génese dos habitantes de Lazarim, até porque foi também a natureza humana que a isso nos obrigou, quando em tempos remotos os nossos antepassados disputavam um pedaço de terra com o intuito daí retirarem parte vital do seu sustento.

Foi também motivo de divisão os tumultos entre povos vizinhos pela posse do direito à exploração das minas do volfrâmio, existentes nos nossos baldios, causando alguns feridos e por vezes até mortes na defesa dos seus bens. Esta rivalidade era também factor impeditivo de um saudável convívio entre as comunidades das freguesias confinantes, com pena de serem apedrejados ou esfaqueados quando se deslocavam a um destes povos vizinhos e vice-versa, estas constantes brigas obrigaram estas comunidades tão próximas a fecharem-se entre si, resultando daí diferenças estruturais na sua organização social, algumas das quais visíveis na fonética da própria língua.

Este legado histórico transformou-nos em povos rivais, que dificilmente a nossa mente genética nos deixará perder esta identidade local tão enraizada nas nossas comunidades.

Lazarim tem uma actividade cultural incomparável nesta região, que se reflecte nos variadíssimos acontecimentos culturais e tradicionais desenvolvidos durante o ano nesta pequena e isolada Vila do concelho de Lamego, entre outros acontecimentos destacamos o festival anual de Teatro amador feito ao ar livre, realizado pelo Grupo de Teatro Aldeia Verde, as festas anuais da Vila, veneradas em honra de S.tª Barbara, que tem o seu ponto alto no quarto domingo de Agosto, proporcionando um dos melhores concertos sinfónicos da Região, interpretado pelas melhores bandas Filarmónicas do país, de todas estas assinalo as festas mais tradicionais e genuínas de Portugal, o famoso Entrudo de Lazarim, reconhecido internacionalmente pelas suas mascaras de madeira e pela exaltação tradicional da palavra, que se reflecte na rima da leitura dos testamentos da Comadre e do Compadre, figuras antropomórficas, que personalizam a dicotomia entre os rapazes e as raparigas de Lazarim, atraindo à região milhares de forasteiros. Mostramos também aqui uma enorme rivalidade perante os demais povos vizinhos, que sem esta chama competitiva não seria possível mantermos vivo este património físico e imaterial, que culturalmente nos distingue de todos os outros povos, que lamentavelmente poderemos vir a perder se esta reforma for por diante.

 

Segundo o documento verde, que projecta a reforma administrativa, a Freguesia de Lazarim será extinta em virtude de, entre outras condicionantes, estarmos inseridos num município com uma média superior a 100 hab/Km2, e mais de 25 000 habitante. Apenas e por redundância permitam-me enfatizar os dados numéricos dos últimos sensos no município de Lamego, 26 707 habitantes o que dará uma media de 162 hab/km2, como vêm muito próximo dos mínimos qualificativos para que o nosso município passe do 2º ao 3º escalão, escalão este que admitiria Freguesias em área predominantemente rurais com apenas 500 habitantes. Não obstante ficar a minha freguesia a mais de 15 km de distância da sede de concelho, com um despovoamento superior a 10% relativamente aos sensos de 2001 à semelhança de outras freguesias vizinhas em idêntica situação e que provavelmente se vão manter como freguesias, em virtude de fazerem parte de municípios com uma taxa inferior a 100 hab/Km2, conseguindo estes municípios manter freguesias apenas com 150 habitantes.

É para nós incompreensível que Lazarim com características profundamente rurais com um despovoamento na ordem dos 32 % não se aplique o regime de coesão dos municípios do 3º escalão, uma vez que se enquadra totalmente nos critérios proclamados pelo Sr. Ministro dos assuntos parlamentares Miguel Relvas no programa da RTP “Prós e Contras” do passado dia 3 de Outubro. Apelamos às autoridades competentes que não tomem decisões precipitadas, que sejam ponderadas e que não recorram ao método tradicional da régua e esquadro. Para que esta reforma seja justa e equitativa é preciso que se respeitem as diferenças existentes nos nossos povos, visto que se está a lidar com os sentimentos das pessoas, o que é de mais sagrado para as nossas comunidades e que prevalecem desde tempos muito longínquos, sentimentos estes que serão difíceis de apagar, mesmo tendo em conta as dificuldades financeiras que o país atravessa.

 

Lazarim, 28 de Outubro de 2011

Norberto de Castro